Terça-feira, 23 de Agosto
      A case of you #19
      Nelson Rodrigues: o sujeito, lembrando os desejos fenecidos, gabava as graças físicas da mulher. E dizia-lhe do seio: — “Parecia gelatina”.

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Sábado, 20 de Agosto
      Teoria da Literatura #72
      Nelson Rodrigues: O nosso romancista está em crise de solidão. Falta-lhe solidão.

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Quarta-feira, 17 de Agosto
      Regra número um #70
      Agustina: Ser amado por uma cortesã é mais difícil do que ser amado por uma jovem virtuosa. Uma sabe comparar; a outra não tem senão a ignorância como seu guia e o coração como mestre.

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Terça-feira, 16 de Agosto
      Nelson Rodrigues e as ciladas do talento:
      Eu me lembro de minha primeira peça, A mulher sem pecado. Minha intenção inicial, e estritamente mercenária, era fazer uma chanchada e, repito, uma cínica e corajosa chanchada caça-níqueis.
      Todavia, no
meio do primeiro ato, começou a minha ambição literária.
Tardinha de domingo, 14 de Agosto

Eugénio de Andrade.
Domingo, 14 de Agosto
Loas a uma manhã de domingo #111

Leonard Cohen durante a famosa temporada em Hidra, nos anos sessenta. (Desconheço o autor da fotografia).

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Meia-tarde de sábado, 13 de Agosto
      Teoria da Literatura #71
      Nelson Rodrigues batendo mais na tecla da entrada anterior:
      Mas dizia eu que devo muito aos inimigos e muito pouco, ou quase nada, aos admiradores. Os meus admiradores quase me perderam. Quando escrevi Álbum de família, Manuel Bandeira declarou, em entrevista a O Globo, entre outras coisas, que eu era, “de longe, o maior poeta dramático que já apareceu em nossa literatura”. É, como se vê, um elogio de ardente seriedade. E quem o assina é um dos maiores poetas da língua.
      Mas não sei se, hoje, Manuel Bandeira diria o mesmo. Há anos e anos que deixei de merecer o seu louvor. E é maravilhoso que assim seja. Os admiradores, inclusive o poeta, quase provocaram a minha morte artística. Eis a amarga verdade: — durante algum tempo, eu só escrevia para o Bandeira, o Drummond, o Pompeu, o Santa Rosa, o Prudente, o Tristão, o Gilberto Freyre, o Schmidt. Não fazia uma linha sem pensar neles. Eu, a minha obra, o meu sofrimento, a minha visão do amor e da morte. Tudo, tudo passou para um plano secundário ou nulo. Só os admiradores existiam. Só me interessava o elogio; e o elogio era o tóxico, o vício muito doce e muito vil. Pouco a pouco, os que me admiravam se tornaram meus irresistíveis co-autores. E quando percebi o perigo, o aviltamento, comecei a destruir, com feroz humildade, todas as admirações do meu caminho.


      Hoje a toxicidade do elogio pode ser ainda mais feroz — quando já nem se trata de agradar a Manuel Bandeira mas ao frenesim partilhadeiro das redes sociais, que se péla pela frase de ensinamento moral descomplicado, e depois ao mercado dos não-leitores que se querem ter por leitores sem o desafio da leitura, como um adereço, veste-se e pronto, semelhantes aos apreciadores de música clássica que trocam de bom grado a estopada de uma sinfonia de quarenta minutos por um concerto agradável de peças curtas e canções regulares do Rodrigo Leão — não desfazendo; não é para ele o remoque —, porque, uma vez que também mete violinos e músicos trajados a rigor, conta para o mesmo campeonato, e para sofrimento chega o das horas úteis.
      Pessoalmente, encanita-me deveras perceber num texto um autor que julga saber o que eu quero ler — se nem eu sei! Caso esteja calculadamente a tentar agradar-me e o consiga sem que eu o perceba (é uma redundância: para o conseguir eu não posso perceber), saímos do território da fraude e vamos adiantados no do jogo da literatura e está tudo bem. Mas é uma estratégia arriscada.


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Sábado, 13 de Agosto
      Teoria da Literatura #70
      Eu devo muito e, quase dizia, eu devo tudo aos que me chamam, por exemplo, de “cérebro doentio”. [...] Eu me lembro de que, a propósito de Perdoa-me por me traíres, o dr. Alceu Amoroso Lima escreveu: — “Uma peça cuja abjeção começa pelo título”.
      Quando li isso no dr. Alceu, fui possuído por uma certeza feroz: — “Estou certo”. Certo, moral, social, dramaticamente certo.

      Nelson Rodrigues, A Menina Sem Estrela.

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Quarta-feira, 10 de Agosto
Na ilha de Ana Teresa Pereira #25




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Canícula de terça-feira, 9 de Agosto
Programa #29

Claudio Abbado, Luigi Nono e Maurizio Pollini num dia frio em Milão, anos 70. (Desconheço o autor da fotografia.)

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Terça-feira, 9 de Agosto
      Programa #28
      Eugénia usava cinco alianças nos dedos, a dela própria, a do marido, a da mãe, a do pai e a da irmã. Nos momentos de aborrecimento e de impaciência, tirava-as e voltava a metê-las nos dedos.
      Agustina, Contemplação Carinhosa da Angústia.

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Tarde de segunda-feira, 8 de Agosto
      Regra número um #69
      Nelson Rodrigues: Pão sem manteiga é triste.

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Segunda-feira, 8 de Agosto
      Regra número um #68
      Nelson Rodrigues: a opinião pública é uma doente mental.

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